03/10/2013

Tempo de antena | A morte à distância de um clique






A morte é o que de mais certo temos na vida. Com excepção daqueles que se tornarão zombies, vampiros ou almas penadas. A morte é um processo irreversível em que o nosso corpo cessa as suas actividades biológicas. É o fim, end, fin, final, ende, τέλος, einde, конец, پایان, e por ai adiante. 



Tememos a morte, mas ao mesmo tempo somos fascinados por ela. Desde os tempos mais recuados da História, que este fenómeno é representado em rituais, na arte, na literatura, na música, etc. O óbito é uma fonte inesgotável de inspiração e possível de ser representada nas mais variadas formas. A visualização da morte e a sua representação gráfica fez com que ganhasse um lugar cativo no Cinema. 


Quem não recorda aqueles filmes de cowboys, em que o mesmo índio morria várias vezes. O sangue estilizado de um 300 ou a crueldade de um My Girl, em que uma criança morre com picadas de abelhas. No entanto, será que a Sétima Arte, a Literatura, ou a Pintura têm o mesmo poder que a Televisão tem, ao abordar a morte de forma exaustiva e por vezes cruel? 

O Cinema não consegue transmitir o cru das imagens de animais a serem mortos para recuperar as peles – imagens que tantas vimos na National Geographic ou no Canal Odisseia. O ecrã do cinema não consegue transmitir um assassinato, um atentado ou um acidente como um noticiário. Não consegue retratar a estupidez humana a que assistimos em directo (dias a fio) aquando a queda da ponte de Entre-os-Rios em que do país inteiro partiram excursões para ver se os corpos dos falecidos apareciam nas margens do rio. Também as telenovelas merecem uma palavra. Já repararam que quase todas se iniciam com uma morte? 

Lutos, funerais e idas ao cemitério, são usuais. Doenças, acidentes, assassínios, suicídios são o “pão nosso de cada dia”. Com excepção da abordagem ao sexo, a morte é das coisas mais rentáveis para as audiências em televisão. Matar (seja de que forma for) várias pessoas ao longo de vários episódios ou temporadas é um “negócio” que as séries de televisão gerem muito bem. 

Seja numa abordagem mais leve ou cómica, científica ou criminosa, a morte faz parte das séries de televisão, como nunca fez no cinema. No cinema a morte – com excepção de filmes com sequelas – é mais passageira. Acontece, tem consequências, pode influenciar rumos e decisões, mas passa. Nas séries, a nossa relação com a morte é prolongada. 

Assistimos a doenças que se prolongam por episódios e episódios, vimos estratégias para matar, lidamos durante temporadas com o luto e escolha de caixões, vimos cotonetes a definirem as causas da morte. Conhecemos o morto e quem mata. Conhecemos quem fica feliz com a morte e quem a chora. Lidamos com decisões que envolvem a salvação ou a condenação. A vida ou a morte. 

Vejamos cinco exemplos de séries que dependeram ou dependem da morte para o seu sucesso. Nota: optei por não mencionar séries com malta pouco viva ou já morta – do tipo vampiros e afins.






A série Lost, ressuscitou em muitos espectadores o reviver daquilo que é considerado “culto”. A inovação do argumento, os códigos e os segredos que dela faziam parte, prenderam-nos a cada episódio com o intuito de descobrirmos mais e mais. Criamos teorias e hipóteses. Universos paralelos, extraterrestres, mundo onírico… tudo era possível. 

Mas no íntimo, todos tínhamos a consciência que a morte justificaria muita coisa no argumento de Lost. Pensamos nela desde o “momento um”. Mas… será que esta teoria faria sentido? Fazia sentido as personagens estarem mortas, se durante os episódios, continuavam a morrer? 

A divisão da série em histórias diferentes, em passado, presente e futuro, com flashbacks, flashforwards, retrospectivas e memórias, cruzamentos de personagens e por adiante, transformam Lost numa espécie de mitologia. A mistura de ficção científica com fenómenos sobrenaturais, a humanização de algumas personagens e a demonização de outras, ajudaram a que criássemos simpatias e ódios, teorias e certezas. Mas, foi a especulação a melhor aliada do sucesso de Lost. Aquilo que víamos e achávamos certo no episódio três podia ser destruído no episódio quatro. O “elemento x” podia estar morto hoje e vivo amanhã, ou vice-versa. 

No último episódio da série - o episódio cento e vinte um da sexta temporada é travada uma luta entre o bem e o mal. Mas, o bem e o mal são pouco explicados e as perguntas feitas ao longo da série não encontram grande resposta neste fim. A luta das personagens entre as várias fases das suas vidas, entre encontros e desencontros, entre amizades, amores e ódios, permite a descoberta das suas próprias identidades, de redenção e de paz. 

No happy-end descobrimos que tudo aconteceu num cenário que afinal era de pós-morte. Assim, muitos dos mistérios permanecem mistérios e grande parte das perguntas não teve resposta. Nunca recuperei o horror que este fim causou em mim. Queria mais, queria mais explicações, queria chegar ao fim com dúvidas diferentes daquelas que permaneceram. No fim, uma certeza, nem o purgatório de Gil Vicente é tão complexo. 





O cenário principal da série criada por Alan Ball é uma agência funerária. A agência é o sustento da família Fisher que partilha a habitação com o negócio. 

A série é envolta num ambiente de luto perpétuo. A morte do patriarca Nathaniel Fisher influência toda a série ao fazer com que o filho mais velho se torne sócio do negócio que desconhece, ao deixar a mulher como uma viúva amargurada, a filha mais nova numa adolescente rebelde e um filho que luta pela sua felicidade como homossexual assumido. A este explosivo contexto, Six Feet Under aborda ainda questões relacionadas com a política, infidelidade e a religião. 

Uma das características mais interessantes desta série é que sempre abordou a morte de uma forma diferente. A morte era muito mais que um acontecimento. Todos (ou melhor, quase todos) os episódios iniciavam com um óbito. O porquê do falecimento da pessoa era explorado ao longo do episódio. Cada morto era um cliente da agência. O processo de desaparecimento da pessoa era abordado em vários níveis - íntimo, filosófico e espiritual e não como um simples acontecimento. 

A morte de alguém servia de “tom” às histórias das personagens principais. Tinha consequências na trajectória das suas vidas, nas reflexões, sobre os infortúnios por que passaram e influenciavam acontecimentos do seu futuro. 

Em Six Feet Under é comum os mortos dialogarem com os vivos e vice-versa. Mas também os vivos mantêm entre si, diálogos que muitas vezes ultrapassam a normalidade da vida terrestre. Real e irreal, vivos e mortos partilham vários momentos e grandes e intensos diálogos ao longo de sessenta e três episódios e distribuídos por cinco temporadas. 





O assassino mais famoso e estimado da história contemporânea da ficção televisiva dispensa grandes apresentações. Basta olharmos para os posters ou ver imagens para percebermos que a ligação entre a história da série e a morte é intensa. A série – que estreou em Outubro de 2006 no Showtime foi baseada nos livros de Jeff Lindsay

Dexter Morgan é um técnico de laboratório, especializado em sangue que trabalha para a polícia de Miami. Mas Dexter é primeiro que tudo e antes de mais nada um assassino em série com um estranho velame de justiceiro. 

O cientista foi adoptado por um agente da polícia que depressa percebeu os instintos selvagens de Dexter. O “pai” não os reprime, mas educa-os e cria-lhe um código. Este código determina que só pode matar criminosos - homens ou mulheres que por algum acto, fazem parte dos registos policiais (ou não). Numa primeira fase, os alvos são unicamente criminosos que a polícia ou a justiça não consegue penalizar. 

Mas este “Código de Harry” começa a falhar. O cientista começa a ter dificuldade em conciliar a sua vida dupla – a de assassino com a profissional, a familiar e a social. A necessidade que sente em matar é mais forte do que qualquer relação ou empatia que tem com as pessoas que o rodeiam. Este filtro de justiça depressa resvala e Dexter começa a matar pessoas que não devia. Envolve inocentes na sua vida dupla e começa a falhar na ciência e no detalhe que o seu “código” teve inicialmente. 

A série sofreu vários contratempos. A doença do actor principal afectou muito o enlace do argumento. Muitos fãs ficaram desiludidos com a humanização crescente do assassino, outros com a introdução de mais criminosos, em personagens que se assemelhavam a Dexter e que desvirtuam em certa medida a atenção tínhamos centrado naquela única personagem. 

Mas, independentemente de todos estes detalhes, o mais curioso em Dexter é que todos aqueles valores sobre a vida humana que nos são transmitidos pela escola e família, são colocados na gaveta quando assistimos às mortes em Dexter.

Tal como torcemos por uma equipa de futebol, por um herói ou por um polícia que faz justiça, aqui queremos que Dexter mate e saia impune. Também nós somos influenciados pela veia justiceira do praticar o bem e retirar das ruas aqueles que magoaram ou que fizeram com que alguém sofresse. De um momento para o outro, somos envoltos num manual de como bem matar, esquartejar e esconder o corpo de um ser humano. Matar e fazer desaparecer um ser que é filho, pai ou irmão de alguém. A morte em Dexter é anti-natural, cruel e mascarada, mas o espectador não se importa com isso. Durante uma hora (mais ou menos) os valores em torno dos Direitos Humanos ficam de parte e ansiamos por ver Morgan a matar. 





Uma série sobre a vida, sobre a luta pela sobrevivência e sobre a morte no hospital County General de Chicago, Illinois. Foi pensada originalmente para ser um filme realizado por Steven Spielberg mas depois passou para as mãos de Michael Crichton. Lançou actores para a fama e catalogou outros para a eternidade como médicos e pouco mais. 

Foi das séries mais premiadas e nomeadas da História da Televisão. Nomeada cento e vinte e três vezes para os Emmy e destas nomeações arrecadou vinte e dois prémios. Ganhou o People's Choice Award ininterruptamente entre 1995 até 2002. Tem ainda no seu curriculum prémios como Screen Actors Guild Awards, o GLAAD Media Awards, ou o Golden Globe Awards, entre tantos outros

Não sei se será possível contabilizar o número de mortos das quinze temporadas de Emergency Room. Entre 1994 e 2009 fomos médicos, enfermeiros, assistentes sociais. Ganhamos conhecimentos em pediatria, cirurgia cardiovascular, dermatologia, oncologia. Vimos pessoas a entrar no hospital vivos e a saírem mortos, assistimos a minutos finais de vida, lutas e vitórias contra doenças, erros e milagres médicos.  

Em todos os episódios, a morte estava presente. Envolvia os pacientes e as personagens principais. Seguíamos os dramas familiares, os antecedentes e as consequências daqueles que padeciam. Muitas vezes o fim de uma vida trazia consequências para os comportamentos profissionais e pessoais dos profissionais de saúde que seguíamos todas as semanas. 

ER abriu as portas para um número infindável de séries de cariz médico, que muito lutam por fazer jus à sua memória, mas que se perdem cada vez mais em romances e sexo entre os médicos, enfermeiros e afins e que cada vez menos estão centradas nas doenças, nas cirurgias, e até nas mortes dos pacientes. 





O nome CSI: Crime Scene Investigation não podia ser mais explicito - a investigação do crime. Ora, onde há crime, há mortos. 

Sem mortos, esta série não existia. CSI segue a vida quotidiana dum grupo de cientistas forenses que desvendam criteriosa e cientificamente crimes, mortes enigmáticas e pouco normais. Usando as ferramentas mais eficientes da ciência, estes homens e mulheres conseguem resolver casos difíceis e por vezes surpreendentes. 

Bem filmada, CSI transforma-nos em cientistas. Nunca mais assistimos a um crime na televisão ou num filme da mesma forma. Passamos a estar atentos aos detalhes. Uma impressão digital, um cabelo, uma pegada, um fio de lã podem ser determinantes para descobrir alguém que cometeu um crime terrífico ou que matou num acto de defesa pessoal ou por simples sentido de vingança. Ciência, audácia e instinto, dotam estes profissionais de aptidões que se tornam ferramentas poderosas no combate à delinquência. 

É que até o criminoso mais experiente e cuidadoso, deixa pistas sobre o seu delito – Dexter Morgan que o diga. 







Escolhi estas cinco séries de forma totalmente aleatória. No seu lugar podia estar, por exemplo, um Twin Peaks que desenvolveu todo o seu argumento com a morte de uma mulher. X-Files por ultrapassar a fronteira da humanidade e ir além do Planeta Terra. Dallas pela peculiaridade em torno da vida/morte e ressurreição de JR. Homeland por abordar a morte ao serviço de um Estado e de uma Cultura. Scandal ao eliminar personagens que estão a mais no jogo politico. 

Seriam ainda possíveis e merecidas as menções a Game of Thrones, ao colocar em imagens as mortes que George R. R. Martin escreveu nos seus livros ou a recém findada Breaking Bad, pela relação fatal da personagem principal com uma doença terminal. 

Também três das minhas séries favoritas ficariam bem neste levantamento. Sopranos, The Wire e Sons of Anarchy. Todas caracterizadas pela violência das mortes que retratam, mas com o dom de colocar o espectador constantemente no limbo, ao procurarmos estar sempre bem com “Deus e com o Diabo”. A fronteira do bom/mau, do mal/bem faz-nos ter muitas dúvidas sobre valores vigentes e aparentemente correctos. 

Não podia terminar esta reflexão sem uma palavra sobre as séries históricas. Séries que recuam aos tempos em que o veneno era um bom aliado e em que o sangue era sinónimo de ascensão politico-social, mas também (e sobretudo) de sobrevivência – The Tudors, The Borgias, Spartacus e Vikings

Como podem constatar,  as possibilidades são imensas e todas provam que grande parte da ficção televisiva está para a morte, como um agente funerário à espera de um óbito para prestar um serviço fúnebre e facturar com ele ou como um abutre ansioso por mastigar carne que não lhe deu trabalho a caçar.  

Para a televisão, para os argumentistas, produtores, realizadores e afins a morte é um negócio rentável e - em grande parte dos casos - garantia de popularidade e sucesso.

9 comentários:

  1. Queria deixar aqui algum comentário relevante, mas só me sai: "Well done!" :)

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  2. Espera aí, mas passados estes anos e ainda achas que em Lost eles estavam mortos? Eles estavam vivinhos da silva... Aquele episódio final passa-se no futuro quando entretanto eles iam morrendo, esperando uns pelos outros para seguir em frente, o Céu (ou lá o que seja para cada um deles)
    Mas apesar do final "espiritual", eu adorei a Viagem dos 5 primeiros anos :D

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    1. :) eu também. Lost foi a série que me abriu as portas para o vicio das séries

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  3. Muito bom texto (que me passou ao lado). Sinceramente, adorei lê-lo. Não tendo visto todas as séries destaco Lost, provavelmente a minha série preferida de sempre, onde a morte é de facto presença habitual e decisiva para o desenrolar dos acontecimentos. De resto, fico a pensar no tema em si...

    Cumprimentos,
    Jorge Teixeira
    Caminho Largo

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    1. Obrigado Jorge. Lost está no meu top 3, mas não é a minha favorita. O primeiro lugar está reservado para The Wire

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    2. MOS DEF SOFIA MOS DEF :D

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